segunda-feira, 25 de julho de 2016

Bairro de Botafogo na Muy leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 Botafogo

Nesse momento em que toda Cidade do Rio de Janeiro discute sua preservação, nós da AMAB não poderíamos deixar de estar no centro dessa discussão em relação a preservação do que restou do nosso vastíssimo patrimônio arquitetônico, paisagístico, histórico e cultural.
Afinal, a história dessa cidade pode ser contada - se não inteiramente, mas em grande parte - através dos fatos históricos que tiveram origem em Botafogo.
Sabemos que muito de sua arquitetura já se perdeu pela ganância da especulação imobiliária, no entanto, para que no futuro nossos filhos e netos ainda tenham a chance de conhecer alguns desses exemplares arquitetônicos que contam a história dessa cidade, vamos lutar para que Botafogo seja, ainda que tardiamente, PRESERVADA.
A história do bairro de Botafogo se confunde com a própria história da fundação da Cidade do Rio de Janeiro em 1565. O Rio de Janeiro começou em Botafogo, quer dizer, no morro Cara de Cão, onde hoje está localizada a fortaleza de São João, já que na época não existia a Urca.
Quatro meses depois da fundação, Estácio de Sá, resolveu demarcar os limites da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e doou, como era costume na época, a seu amigo Francisco Velho, que também tinha ajudado na fundação do Rio, terras que iam do morro da Viúva ao da Babilônia, e da Enseada de Botafogo à Lagoa.
Mas o bairro acabou sendo batizado em 1590, quando Antônio Francisco Velho vendeu suas terras para um amigo, João Pereira de Souza Botafogo.
A partir de 1680 surge uma das figuras centrais da história de Botafogo, o padre Clemente de Matos. A propriedade de Clemente abrangia quase todo o bairro. A frente da chácara dava para a praia de Botafogo e ocupava uma área que ia da atual Rua Voluntários da Pátria até a Marques de Olinda e se estendia até a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Na grande chácara, o padre Clemente cultivava anileiras. Á noite, o lugar era praticamente deserto, nessa época, o Rio era iluminado por lamparinas com azeite de baleia.
Até o início do século XIX, o bairro era praticamente despovoado e considerado uma área rural. Um oficial russo que aqui esteve descreveu-o como "uma obra-prima da natureza". De um lado, o mar. De outro, as montanhas.
Mas a chegada a Família Real à cidade, em 1808, mudou a vida do Rio. Na verdade, mudou mesmo a vida de Botafogo.
Quando chegou ao Brasil, dona Carlota Joaquina - a esposa de D. João VI - escolheu um terreno em Botafogo para construir sua mansão. Carlota Joaquina gostava de andar à cavalo vestindo calças - um escândalo para a época. Suas cavalgadas prolongavam-se até a Lagoa.
Sua mansão ficava de frente para a praia, na esquina com o Caminho Novo - atual Marquês de Abrantes.

Nota: Essa casa foi comprada por Miguel Calmon du Pin e Almeida, Visconde com grandeza e depois Marquês de Abrantes, (Santo Amaro da Purificação, Bahia, 23 de outubro de 1796 — Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1865), filho de José Gabriel Calmon de Almeida e de Maria Germana de Sousa Magalhães. Em 1821, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra.
Casou-se com Maria Carolina de Piedade Pereira Baía, filha do Barão do Meriti, que dava as mais belas festas do Império em sua casa na Glória.  
Os Marqueses de Abrantes, a exemplo do pai e do sogro, passaram a dar as mais extraordinárias festas, e outros eventos, no solar de Botafogo, inclusive contando com a presença da Família Imperial.
Minha lavra – Jorge Eduardo Garcia
Voltemos:  
A presença de Carlota Joaquina imprimiu um novo estilo ao bairro. Botafogo se valorizou e suas terras começaram a ser disputadíssimas.
De bairro rural, transformou-se no local preferido pelos nobres e também pelos comerciantes ingleses que procuravam Botafogo para fixar suas belas residências. Tanto que o bairro ganhou o apelido de Green Lane. "O Rio é Botafogo, o resto é a cidade indígena, a cidade negra", descreveu o escritor Lima Barreto em seu livro Vida Urbana.
A enseada era tomada por regatas promovidas pelo Marquês de Abrantes. Os barcos partiam da fortaleza de São João e o ponto de chegada era o solar do nobre, localizado na avenida Praieira. Da varanda o marquês assistia à competição, junto com seus convidados e membros da Família Real ( da Família  Imperial) . Lá estavam figuras históricas como o Almirante Tamandaré e o Almirante Barroso.
A urbanização foi chegando devagar. Em 1847, as ruas foram tomadas por carros de duas rodas e capota puxados por animais. Vieram também as diligências e, mais tarde, o bonde de tração animal da Companhia Jardim Botânico. Em 1854, o abastecimento de água começou a funcionar e seis anos depois, a iluminação a gás veio substituir as lamparinas de óleo de baleia. Em 1888 foi fundado um enorme depósito de gás na Rua Ana, atual Jornalista Orlando Dantas, com capacidade para cinco mil litros de gás.
O desenvolvimento avançava. Em 1870, na praia também funcionava a fábrica de produtos químicos de Aleixo Gary & Companhia. Os trabalhadores da empresa, contratada para fazer a coleta do lixo na rua, usavam uniformes com a inscrição "Gary". Foi aí que começaram a ser chamados de gari, palavra que acabou se tornando um nome para a profissão de lixeiro.
Foi na primeira metade daquele século que as ruas começaram a definir os contornos do bairro. Antes, Botafogo tinha apenas o Caminho do Berquó - hoje a Rua General Polidoro -, o Caminho de Copacabana - atual Rua da Passagem -, a Praia de Botafogo e a São Clemente, que cortava o bairro. Pouco a pouco, outras ruas começaram a surgir. O processo era sempre o mesmo: as ruas eram abertas pelos proprietários das chácaras e, depois doadas ao Município. Em 1825, foi aberta a Rua Voluntários da Pátria. No começo era sem saída, só em 1870 é que a companhia de bondes Garden Rail Road prolongou a rua até o Humaitá.
O lugar mais nobre continuava sendo a Rua São Clemente, onde moravam todos os barões do café (e grandes burgueses). Na Voluntários da Pátria, estabeleciam-se os pequenos nobres e comerciantes.
Na década de 1850, surgiram as Ruas Dona Mariana, Sorocaba e Delfim, que mais tarde foi rebatizada de Paulo Barreto em homenagem ao escritor João do Rio. Havia ainda a rua do "Lá vai um": era a Venceslau Brás, chamada assim porque ficava justamente entre o hospício Pedro II, onde hoje funciona a UFRJ e o asilo Santa Teresa.
Inaugurado em 1852, o Cemitério São João Batista é um marco na história do Rio de Janeiro. Foi um dos primeiros cemitérios sem distinção de classes. Escravos e pobres eram enterrados em cemitérios de covas rasas. Nobres e ricos, em cemitérios particulares. Já os religiosos nas igrejas. O primeiro enterro no São João Batista contou coma presença de Evaristo da Veiga, José de Alencar, Benjamim Constant e Raul Pompéia. A igreja mais antiga de Botafogo foi a Matriz de São João Batista, construída em 1831 e doada à igreja por Joaquim Batista Marques de Leão. Já a Igreja da Imaculada Conceição do Sagrado Coração de Jesus, na Praia de Botafogo, foi erguida em 1892 com suas torres em estilo gótico.
Já na metade do século XIX, o bairro ganhou colégios, clínicas, casas de pasto e um comércio. Botafogo nesse século também já tinha suas Casas de Saúde. A primeira foi a do Dr. Peixoto, na Rua Marques de Olinda, que mais tarde foi rebatizada de Dr. Eiras. O primeiro colégio foi o Imaculada Conceição, logo seguido pelo Colégio Santo Inácio, na Rua São Clemente e pelo antigo Andrews, na Praia de Botafogo. O primeiro clube foi o Guanabarense, fundado em 1870. O Clube Botafogo, foi fundado duas vezes. Primeiro surgiu o Club de Regatas Botafogo em 1894, graças às regatas na enseada, depois em 1904, nasceu o Botafogo Football Club. No começo o campo era improvisado num terreno baldio da Rua Conde de Irajá. A união dos dois clubes só aconteceu em 1942, sob ao nome de Botafogo de Futebol e Regatas.
Na Praia de Botafogo foi fundado, em 1909, o Automóvel Clube. Aliás, o primeiro automóvel trazido para o Brasil, um enorme carro a vapor, teve suas primeiras demonstrações por ali, na praia. Até que numa destas, acabou explodindo. Mas por volta de 1903 e 1904, os ricos e excêntricos já davam suas voltas motorizadas pelo bairro. Conta-se que a primeira batida de carro do Brasil aconteceu em Botafogo. Mais precisamente na Rua da Passagem, envolvendo o escritor Olavo Bilac.
Se antes Botafogo era local de nobres, a partir de 1900 também passou a ser habitado por operários, biscateiros e artesãos, funcionários públicos e militares, comerciantes e profissionais liberais. Ao invés dos enormes casarões, as habitações coletivas se tornaram a marca do bairro. A obra do escritor Aluísio Azevedo - O Cortiço - se passa justamente numa vila da Rua Assunção. Já os mais abastados, moravam nas vilas, outra característica do bairro. Entre 1925 e 1930 surgem as Ruas Barão de Lucena e Guilhermina Guinle. Nessas ruas, inexistiam vilas pois uma lei municipal já havia proibido a construção das mesmas em Botafogo. Começam a surgir pequenos prédios, de no máximo quatro andares.

Nota: O Edifício Leonam, Rua São Clemente, 2333, foi o primeiro arranha-céu de 8 andares, construído na aristocrática rua pelo português Manoel Ferreira de Oliveira e sua esposa, dona Odette Garcia de Oliveira.  
Minha lavra – Jorge Eduardo Garcia
Voltemos:  
O crescimento de Copacabana e do Jardim Botânico provocaram uma verdadeira explosão no comércio e nos serviços de Botafogo. Os moradores desses novos bairros tinham que ir até Botafogo por causa dos hospitais, escolas e mercados, e, retornavam às suas casas no último bonde, o de quatro e meia da tarde. Enquanto Copacabana e Jardim Botânico nas décadas de 40 e 50 registravam taxas de crescimento de 74% e 59% respectivamente, Botafogo registrava apenas 8%, se tornando a partir daí uma mera ligação entre os diversos bairros da cidade. Dizem, que vem daí a expressão bairro de passagem. Isso, é claro, dizem os menos românticos e sem memória.
Enfim, a história de Botafogo será entendida então, como a história das suas ruas, das suas praças, das suas avenidas, dos seus espaços habitados, sejam eles de natureza pública ou privada, ricos ou pobres, eruditos ou populares. O bairro pertence a todos nós, seus habitantes, sendo nossa a responsabilidade de preservá-lo, identificando os elementos componentes de seu patrimônio histórico, cultural, artístico e ambiental, visto que ele constitui a sua memória.
* Pesquisa e Redação: Regina Chiaradia
Bibliografia: História dos Bairros, Botafogo - Grupo de Pesquisa em Habitação e Uso do Solo Urbano da UFRJ
Bairros do Rio, Botafogo & Humaitá - Martha Ribas, Silvia Fraiha e Tiza Lobo