quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Oyá, Exu e Zé Pelintra na Marquês de Sapucaí autor: Jorge Eduardo Fontes Garcia


Maria Bethânia ao dar entrevista ao jornalista Luis Roberto, da TV GLOBO, definiu o carnaval da Mangueira levantando os braços e exclamando:
“ Eu sou filha de Oyá, a homenagem é para ela”.
Nesses tempos modernos realmente a cantora foi usada como tema “dentro” do, ou “para”, o maior culto do Candomblé jamais realizado nesse País por um Grêmio Recreativo Escola de Samba, pelo menos que eu tenha assistido. 
Como eu já afirmei as agremiações dos sambistas do carnaval do Rio de Janeiro estão ligadas as religiões africanas, em especial ao Candomblé, desde os seus primórdios, pois seus pavilhões eram bentos pela famosa Tia Ciata, uma baiana de Santo Amaro da Purificação como a “homenageada Bethânia”, uma Iyakekerê (Mãe Pequena), aliás, aclamada como a Mãe do Samba, que residia na nossa Praça Onze tão querida.
Tia Ciata benzia os pavilhões dos ranchos que são os ‘pais’ da Escolas de Samba.
Era   "obrigatório" passar diante de sua casa antes de qualquer desfile.

Assim sendo, fica claro, claríssimo, que os desfiles das agremiações carnavalesca são parte integrante do ‘culto afro’ desde do início, desde os tempos das Tias Baianas, as senhoras negras, muitas delas originárias da Bahia, que viviam no Rio de Janeiro.



Em 28 de abril de 1928 no “ Buraco Quente (Travessa Saião Lobato nº 21), na casa de seu Euclides da Joana Velha, pai do João Cocada, foi fundada a agremiação que veio a ser Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira (o nome foi dado em 1935), sendo sete os sambistas   fundadores: Seu Euclides (Euclides Alberto dos Santos, o dono da casa), Saturnino, Marcelino, Cartola, Pedro Caim, Abelardo da Bolinha e Zé Espinguela”.
O pavilhão verde e rosa – cores escolhidas por Cartola- não foi bento por Tia Ciata já que ela havia morrido em 1924, e eu não tenho a menor ideia de quem o benzeu.
Contudo, houve uma Tia importante na consolidação do Samba no Complexo do Morro da mangueira, a Tia Fé.
Benedita de Oliveira, a Tia Fé, “ uma negra que se vestia de baiana o ano inteiro, que era Mãe de Santo de um Terreiro famoso no primeiro quartel do vinte do século XX, Terreiro esse que com sua morte foi herdado por seu genro, Hilário Chiquinho Crioulo”.
Com isso a casa de Tia Fé, também, no Buraco Quente, se tornou um local de reunião dos sambistas do Morro da Mangueira.

Em 1910 criou com o filho Alcides e o genro Júlio Dias Moreira, marido de sua filha Palméria, o rancho carnavalesco Pérolas do Egito, cuja “ a sede era dentro da cerca da Estrada de Ferro, pois lá ficava o Registro, era o cano de água da Rio Douro, onde as lavadeiras da localidade costumavam disputar uma vaguinha no grito e no tapa*”. EITCHA... 




A iniciativa de Tia Fé certamente influenciou os sambistas como o já citado “ José Gomes da Costa, o Zé Espinguela, Pai de Santo e "irmão de cabeça" de dona Lucíola, velha matriarca da Mangueira.
Zé Espinguela, que não morava no morro, mas de lá não sai por causa de uma teuda e manteuda, em “1925 teve ideia de fundar um bloco, a que deu o sugestivo nome de Bloco dos Arengueiros, constituído, entre outros, por Cartola (Angenor de Oliveira), Maçu (Marcelino José Claudino), Saturnino Gonçalves e seu irmão Arthur (respectivamente pai e tio de D. Neuma da Mangueira), Carlos Cachaça (Carlos Moreira de Castro), Chico Porrão, Fiúca e Homem Branco”.
Esses acima mencionados, os ‘arengueiros”, são os fundadores da agremiação carnavalesca que em 1935 passou a ser o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira.
O Pai de Santo Zé Espinguela “em 20 de janeiro de 1929, um domingo, dia de Oxóssi para alguns e de São Sebastião para outro, realizou o primeiro concurso entre escolas de samba no bairro de Engenho de Dentro, em frente a sua casa, na Rua Adolpho Bergamini, onde hoje está a sede do Grêmio Recreativo Escola de Samba Arranco.
Disputaram a Estácio, a Mangueira e o Conjunto Carnavalesco Osvaldo Cruz, (a futura Portela).
A vencedora desse concurso não oficial foi a “ o Conjunto Carnavalesco Osvaldo Cruz, sabiamente dirigida pelo Paulo”, segundo as palavras do próprio Zé. ”
Mais, o que importa aqui é que vemos uma Tia Mãe de Santo nos primórdios do samba no complexo do Morro da Mangueira, e mais:
Um Pai de Santo entre os fundadores do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

Com isso, mais uma vez, conseguimos entender a “ Simbiose” entre as religiões afros e as agremiações de sambista, uma inter-relação de tal forma íntima iniciada por Tia Ciata, uma Iyakekerê, que é considerada a Mãe do Samba, na Praça Onze tão querida. 
Mas vamos para o presente: 

A Mangueira não ganhava o Concurso do Grupo Especial das Escolas de Samba desde o Carnaval de 2002, com o enredo “Brazil com 'Z' é para Cabra da Peste, Brasil com 'S' é a Nação do Nordeste”, do carnavalesco Max Lopes, "O Mago das cores", imortal da Academia Brasileira de Belas Artes (ABBA), tendo como puxador de seu samba o célebre Jamelão, portanto a 14 anos.
O jovem carnavalesco Leandro Vieira, só tem 31 anos, depois de passar pela Caprichoso de Pilares resolveu ‘resgatar orgulho' da Mangueira.
Bastante religioso - “ Os inúmeros santinhos colados num boneco articulado sobre a mesa e a pequena figa de guiné segurando guizos preso ao quadro de avisos – juntou o útil ao agradável escolhendo Maria Bethânia como tema, o que dava a ele a oportunidade de homenagear os Orixás em um culto belíssimo e extraordinário na Avenida Marques de Sapucaí.
Deu no que deu, VENCEU com seu “ a Menina dos Olhos de Oyá”, recebendo da comissão julgadora 269, 80. 
Mais quem é Oyá?
“O nome Oyá vem do Rio Oyá onde era e é o local principal do culto a divindade”.
O Rio Oyá hoje é denominado Rio Níger e fica na Nigéria.
“Oyá é um orixá feminino dos ventos, relâmpagos e tempestades, bem como das paixões.”.
“ Oyá recebeu o título de Iansã - A mãe do céu rosado ou A mãe do entardecer- de Xangô, seu marido, que a via ao entardecer sempre, sempre, radiante”.
No Candomblé - O Mundo dos Orixás - http://ocandomble.com/ está escrito sobre as “ características dos filhos de Iansã / Oyá:
Para os filhos de Oyá, viver é uma grande aventura. Enfrentar os riscos e desafios da vida são os prazeres dessas pessoas, tudo para elas é festa. Escolhem os seus caminhos mais por paixão do que por reflexão. Em vez de ficar em casa, vão à luta e conquistam o que desejam.
São pessoas atiradas, extrovertidas e diretas, que jamais escondem os seus sentimentos, seja de felicidade, seja de tristeza. Entregam-se a súbitas paixões e de repente esquecem, partem para outra, e o antigo parceiro é como se nunca tivesse existido. Isso não é prova de promiscuidade, pelo contrário, são extremamente fiéis à pessoa que amam, mas só enquanto amam.
Estas pessoas tendem a ser autoritárias e possessivas; o seu génio muda repentinamente sem que ninguém esteja preparado para essas guinadas. Os relacionamentos longos só acontecem quando controlam os seus impulsos, aí, são capazes de viver para o resto da vida ao lado da mesma pessoa, que deve permitir que se tornem os senhores da situação.
Os filhos de Oyá, na condição de amigos, revelam-se pessoas confiáveis, mas cuidado, os mais prudentes, no entanto, não ousariam confiar-lhe um segredo, pois, se mais tarde acontecer uma desavença, um filho de Oyá não pensará antes de usar tudo que lhe foi contado como arma.
O seu comportamento pode ser explosivo, como uma tempestade, ou calmo, como uma brisa de fim de tarde. Só uma coisa o tira do sério: mexer com um filho seu é o mesmo que comprar uma briga de morte: batem em qualquer um, crescem no corpo e na raiva, matam se for preciso.
E assim se considera Oyá uma deusa de temperamento mais agressivo, e em sendo a cantora Maria Bethânia uma mulher de temperamento forte e Filha de Santo do Terreiro do Gantois ou Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê, “ um candomblé familiar de tradição hereditária consanguínea, em que os regentes são sempre do sexo feminino”, localizado no o Alto do Gantois, 33, no bairro da Federação, Salvador, Bahia, nada melhor do que ela se tornar, como se tornou, o enredo da Mangueira em 2016, para que seus deuses fossem honrados e cultuados.

Alias, Dona Bethânia pediu orientação a Iansã no Gantois, se ela podia ou não podia aceitar, se era do agrado de Oyá o enredo, e consequentemente o desfile na Marques de Sapucaia, da Mangueira. Só depois, segundo ela, da permissão de Oyá foi que ela aceitou ser o Tema, dando sinal verde para os trabalhos no enredo.  

Venceu...

Dr. Milton Cunha.
Uma disputa entre os Orixás:

Segundo o professor doutor em Letras pela UFRJ, Carnavalesco renomado, comentarista do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro pela Rede Globo, o senhor Milton Cunha, nesse ano de 2016 houve “uma guerra entre os Orixás na Marques de Sapucaí”.
Afirmou ele que de um lado estava:

1-     A Mangueira com Oyá/Iansã;
2-     Do outro o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro “com Exu, o Orixá guardião dos templos, encruzilhadas, passagens, casas, cidades e das pessoas, mensageiro divino dos oráculos, e Zé Pelintra, “ considerado o espírito patrono dos bares, locais de jogo e sarjetas, embora não alinhado com entidades de cunho negativo, é uma espécie de transcrição arquetípica do malandro”.

O enredo do Salgueiro foi “ Ópera dos Malandros”, um “ enredo livremente inspirado na obra “A Ópera do Malandro” de Chico Buarque de Hollanda”, como afirma o site do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro. **
Eu penso que usaram “A Ópera do Malandro” como forma de reverenciar a Exu, tanto que um componente altíssimo caracterizado como o Orixá foi posto na frente da Comissão de Frente, bem como honrar a Zé Pelintra, pois na mesma Comissão, e durante o desfile, apareceram malandros cantando o samba – enredo do Salgueiro que diz:
Malandro…
Dono deum jeito manso que é só seu de aparar os dilemas da vida no fio da navalha.
É o sujeito cordial que desfila macio entre dados, cartas e roletas.
É o rei de todos os naipes num carteado de damas, valetes e coringas.
Aquele que, mesmo quando o jogo vira contra, nunca joga a toalha.
Porque é o filho gerado no ventre da sorte, a imperatriz do mundo!

Malandro…
É o pensador dos botequins, filósofo das mesas de bar!
O dono de um mundo que aprendeu a domar.
Poeta, comanda o cortejo na cadência bonita do samba vadio
que o luar lhe emprestou.

É pode ser, e quem sou eu para contrariar o Doutor Milton Cunha um entendido nessas ‘paradas’.
Mais pelo sim, ou pelo não, quem ganhou foi Oyá, pois segundo Maria Bethânia uma filha de Oyá, a homenageada era ela, a Divindade.

Parabéns Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, vocês ganharam limpo e fizeram o maior culto do Candomblé jamais realizado nesse País por um Grêmio Recreativo Escola de Samba.


Exu do Salgueiro 




Malandros da Comissão de Frente do Salgueiro 

E tenho dito.

Jorge Eduardo Fontes Garcia

São Paulo 10 de fevereiro de 2016 


A Fonte para esses dados foram retiradas da publicação de Rodson Magalhães Lourenço, no site “Ala das Baianas – Historias e Memórias de Baianas das Escolas de Samba” - http://aladebaianas.com.br/i/novidades/158-tia-fe-pioneira-da-mangueira.html

** Nesse concurso de 2016 o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro ficou em quarto lugar com 269,80 pontos recebidos da comissão julgadora, ou seja, uma diferença de apenas 30 pontos da vencedora Mangueira.