quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O desemprego derrotou o PT de Carlos Alberto Sardenberg O GLOBO 06/10/2016

 Lava-Jato ajudou a dizimar partido. Mas se a economia estivesse caminhando bem, como no mensalão, o povão seria mais tolerante

 Domingo à noite, já conhecidos os principais resultados eleitorais, fui a um restaurante paulistano daqueles bem ecumênicos. Ali se cruzam políticos, economistas, profissionais liberais, executivos dos setores público e privado, um ambiente que se chamaria de elite intelectual, formadores de opinião, por aí. E sendo São Paulo, há uma clara dominância de tucanos e petistas.

Reparem: no eleitorado, o PSDB tem dado banhos seguidos. Mas o PT ainda é mais forte na elite do que no povão. Bem mais forte. Por exemplo: em eleições simuladas entre alunos de ensino médio em colégios caros da cidade de São Paulo, Fernando Haddad ganhava no primeiro turno. Isso resulta do espírito socialista da juventude — hoje centrado em temas que vão da igualdade de gêneros e racial, até as famosas ciclovias — turbinado por uma verdadeira doutrinação aplicada por professores entre os quais ser do PT é até moderado.

Tudo considerado, caem na esquerda: ciclovias, parada gay, pichação, fechar avenidas aos domingos, atrapalhar tudo que é privado. Vão para a direita: 90 km/h nas avenidas marginais, abrir ruas aos carros, privatizar até cemitérios, ganhar dinheiro.

O Uber é gozado. Sendo uma multinacional americana, deveria ser odiada pela elite/esquerda, mas, sabem como é, quebra um galho, funciona tão bem — melhor deixar pra lá.

Já os funcionários daquele restaurante onde iniciamos esta história votaram quase todos no tucano João Doria — que, aliás, não faz parte do grupo típico de frequentadores. Mais exatamente, os garçons, caixas e cozinheiros votaram contra o PT.

Não, não são de direita. São trabalhadores, por isso são antipetistas. Simples: dois anos atrás, o restaurante tinha o dobro de funcionários. A crise foi cortando cabeças e espalhando o temor entre os que ficavam. Temor e mais serviço, do que, aliás, não reclamavam. Ao contrário, contavam animados que o movimento estava voltando.

A Lava-Jato ajudou a dizimar o PT. Mas se a economia estivesse caminhando bem, como estava na época do mensalão, o povão seria mais tolerante. Até deixaria passar a tese de que roubar era coisa de rico.

O mensalão é dinheiro de troco diante do petrolão. Também era mais difícil de entender, porque os culpados juraram inocência até o fim. Já agora, o pessoal confessa o roubo de centenas de milhões de reais e dólares, ao vivo na TV. E não dá para dizer que roubam mas fazem, ou que roubam para ajudar o partido do povo. Como dizer isso diante de 12 milhões de desempregados, inflação acima de 10% ao ano, perda do poder aquisitivo e colapso dos serviços públicos?

Dilma, Lula e sua turma tentaram dizer que foi tudo culpa da crise do imperialismo. Não colou, lógico, pois os mesmos Lula e Dilma alardeavam que seu governo sabia driblar as crises dos outros. Além disso, os mais ou menos informados viram que, dos países importantes, o Brasil é o único em recessão.

Por tudo isso, vai ser muito difícil a recuperação do PT. O primeiro passo seria reconhecer o equívoco da política econômica aplicada desde o segundo governo de Lula, quando, sob o comando de Dilma, abandonou o projeto de estabilização e pró-mercado herdado de FHC. Mas no debate do PT as primeiras vozes dizem que o partido se perdeu por ter ido demais à direita.

Ora, o partido não se desviou para a direita. Se desviou para a corrupção e para a velha politicagem brasileira — aliás também condenada pelo “não voto” (nulos, brancos e abstenções). Caímos no pior dos mundos: uma política econômica da esquerda falida, a bolivariana, tocada por um partido que aderiu às piores práticas dos velhos políticos.

Momento difícil, portanto.

A eleição deixou mais perdedores do que vencedores. Os eleitores condenaram o PT, a esquerda velha e corrupta, o modo de fazer política que nos atrasa há tanto tempo. Mas não ficou claramente de pé uma nova agenda, a das reformas liberais e pró-mercado.

O prefeito eleito de São Paulo, João Doria, falou dessa agenda. Também a defendeu o prefeito reeleito de Salvador, ACM Neto, campeão de votos.

A questão é saber se foram eleitos principalmente por causa dessa agenda ou se o fator dominante foi a onda anti-PT e antipolíticos. Saberemos ao longo dos próximos meses, dependendo, sim, da atuação desses prefeitos, mas que é limitada e local.

O serviço maior para a saída da crise depende do da atuação do presidente Temer e sua base de deputados e senadores. Sim, daqueles nos quais o povo não votou.

Complicado.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista



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