segunda-feira, 18 de abril de 2016

Radicalização - Denis Lerrer Rosenfield em O Globo

O Palácio do Planalto, vazio de interlocutores confiáveis e reconhecidos, foi preenchido por grupos de militantes que mais parecem uma horda de bandoleiros

O Palácio do Planalto virou um palco do horror. Em um governo onde mais nada deveria surpreender, há ainda surpresas para um espectador sensato.

A presidente Dilma foi abandonada pela sociedade. Após se eleger com um discurso completamente ficcional, sem nenhuma relação com a realidade, foi obrigada a desdizer-se uma vez que o descalabro econômico e social mostrou-se em sua nudez. Prometeu uma coisa e começou a fazer outra, como se os cidadãos fossem um bando de idiotas, incapazes de discriminar uma tal situação.

O discurso do marketing eleitoral foi substituído por discursos que primam pelo caráter desconexo, onde o sujeito e o predicado se entrelaçam de uma forma aleatória e arbitrária. Se são desconexos, isto se deve à própria desconexão entre o apresentado e o real pelo petismo criado.

A presidente Dilma foi abandonada pelos partidos políticos. Sobrou-lhe apenas o PT e o PCdoB, além de uns poucos desgarrados em busca de cargos vagos. O mais surpreendente, mesmo para os elásticos padrões da política brasileira, é que os partidos não querem preencher esses cargos, seja porque já dão como favas contadas que o barco naufragou, seja porque não acreditam no que o governo e o PT prometem. Quem já prometeu e não cumpriu, não merece nenhuma credibilidade.

O Palácio do Jaburu tornou-se o centro de romarias em Brasília. Deputados e políticos afluem de todos os lados. Se continuar assim não me surpreenderia que até o PT para lá se dirigisse! Contudo, o diferencial consiste no fato de o vice-presidente acolher gentilmente, amigavelmente, os parlamentares, dedicando-lhes tempo e apreço.

Muito provavelmente, a grande maioria destes deputados jamais visitou a presidente no Palácio do Alvorada, nem foi por ela lá acolhida. A humilhação foi a regra para muitos. Agora, vivem a diferença. A presidente Dilma está colhendo o fruto de sua arrogância e o PT pagando o preço de suas tendências hegemônicas e autoritárias.

Nem o recurso ao ex-presidente Lula produz resultados. Ficou na paradoxal situação de articulador político sem poder assumir a Casa Civil. “Ministro” fingindo exercer uma função ministerial. É propriamente um vexame!

Muito provavelmente deverá prestar contas à Justiça em um futuro imediato. Neste caso, nem ele sobreviverá ao fracasso do governo petista. O seu problema maior é, hoje, a sua própria sobrevivência. A política surge mesclada a questões criminais.

O que sobrou? O gueto do esquerdismo!

Na ausência de qualquer narrativa crível, a presidente Dilma, o ex-presidente Lula e o PT optaram pela radicalização. O Palácio do Planalto, vazio de interlocutores confiáveis e reconhecidos, foi preenchido por grupos de militantes que mais parecem uma horda de bandoleiros.

Um lugar que deveria respeitar as leis e as instituições é literalmente tomado de assalto por pessoas que prometem violar essas mesmas leis e instituições. A presidente, aliás, fez um juramento de respeito e obediência à Constituição.

Qual é, no entanto, a realidade? Aplaudiu os discursos “revolucionários/criminosos”, além de abraçar os seus proponentes. Deveriam ter sido expulsos do Palácio, mas foram carinhosamente acolhidos. Foi literalmente um abraço dos afogados. O pouco apoio que ainda usufruía dos meios empresariais saltou pelos ares.

Não surpreende, por exemplo, que o Secovi de São Paulo, a Fiesp e a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) tenham aderido corajosamente ao impeachment. O setor agropecuário, em particular, mais do que qualquer outro, foi o que sempre viveu na carne, muitas vezes sozinho, a violência e o desrespeito ao direito de propriedade e da Constituição em geral levados a cabo por esses ditos “movimentos sociais”. Conhecem muito bem as consequências práticas deste discurso!

Tal posição esquerdista expressa nada mais do que o bolivarianismo desta ala do PT e de seus afilhados, financiados, aliás, com o dinheiro público, o dos contribuintes, como se estes devessem pagar pela violação da Constituição. A própria Unasul, confederação de Estados bolivarianos, estes que estão levando os seus próprios povos à ruína, chegou ao desplante de fazer uma condenação do impeachment da presidente Dilma. Os comparsas continuam irmanados.

O ápice desta triste encenação consiste no discurso do “golpe”, forma de vitimização, voltada para estabelecer as bases eleitorais do PT na oposição. Trata-se de um discurso de adeus, de reconhecimento envergonhado da derrota iminente.

Contudo, os últimos dias foram ainda pródigos de uma outra insensatez, a de um projeto — provavelmente abortado — de decretação do “estado de defesa”. Digo provavelmente, pois, em momentos de crise, nunca se sabe o que pode resultar de uma medida desesperada.

Uma vez decretado o “estado de defesa”, após ouvidos o Conselho da República e o de Defesa Nacional (que não foram até hoje constituídos), a presidente seria dotada de poderes extraordinários, próprios de uma situação de guerra ou de uma enorme catástrofe natural. Prisões, violação de correspondência, cerceamento da liberdade de ir e vir, de manifestações ou de imprensa, poderiam ser feitos por mera determinação presidencial.

O “estado de defesa” só poderia ser, portanto, decretado em uma situação extrema de perturbação da ordem pública. Ocorre, porém, que o processo de impeachment está sendo conduzido na mais perfeita ordem democrática, seguindo a Constituição e as recentes decisões do Supremo concernente ao seu ritmo.

Logo, o governo petista estaria, na verdade, procurando perturbar a ordem pública, dizendo defendê-la. Uma ordem deste tipo, muito provavelmente, não seria obedecida pelas autoridades militares, dada a sua flagrante inconstitucionalidade.

Contudo, o discurso dos esquerdistas/desesperados seria o de que a desobediência militar seria um “golpe”! Os autores do golpe o atribuiriam a outros. A narrativa petista seria salva e o país rumaria para o caos.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul



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